sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Da minha ilusão


Da brevidade

‎"Que foi isso, de repente? Nada; dez anos se passaram. Não diga! Se somaram? Se perderam? Algumas relações se aprofundaram? Se esgarçaram? Onde estávamos? Onde estamos? E...aonde vamos? O tempo, em lugar nenhum e em silencio, passa. É inegável - todos temos mais dez anos agora (...) Tudo nos aconteceu. Amamos, disso temos certeza. E fomos amados - onde encontrar a certeza? Avançamos aqui materialmente, ali não, nos realizamos neste ponto, em outros queríamos mais, algumas coisas tivemos mais do que pretendíamos ou merecíamos - mas isso é difícil de reconhecer. Perdemos alguém - " viver é perder amigos". No meio do feio e do amargo, no tumulto e no desgaste, tivemos mil diminutos de felicidade, no ar, no olhar, na palavra de afeto inesperado, que sei? Espera, eu sei. É a única lição que tenho a dar; a vida é pequena, breve e perto. Muito perto - é preciso estar atento"

[Millôr Fernandes]

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

História da minha vida

Mentre rimandiamo, la vita passa.

Seneca

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Do movimento


"Já escrevi muitas vezes sobre você, algumas de forma desesperada, outras com todo o amor que eu já senti e outras me sentindo a mais triste das pessoas. Hoje, é um sentimento estranho, que não sei definir exatamente, mas que é bom, porque não penso, nem sinto mais como se o mundo fosse acabar por não estarmos juntos.(...) Mas sei que o que sou hoje, tem muito do que eu me vi contigo. Eu te amei, depois te odiei, te amei de novo, te odiei de novo, voltei a amar, voltei a odiar. Círculo vicioso. 
 (...)
Quase dez anos desde a primeira vez que nos falamos. A intensidade das coisas que vivi nos últimos anos foi maior, porque foi o início do processo de deixar de amar você. Conheci pessoas. Reencontrei pessoas. Realizei planos. Outras bandas listaram meus favoritos. Dei passos largos. Visitei lugares. Conheci uma verdadeira história de amor. Respirei. Caminhei sozinha por ruas desconhecidas. Me apaixonei. Novos filmes falaram comigo. Fiz planos. 
Já não dói escutar nossas músicas. Tem muita coisa que não mais.
Para estar livre é preciso movimento. Sento à mesa de um bar e não te procuro mais em mim. 
Longe da mente, longe do coração."

Modificado de "Sobre as verdades - Patrícia Midori Sawamura"

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Da flecha

"Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre - insegura - segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar..."

[Cecília Meireles]

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Das perguntas

Por que eu assusto as pessoas? Será que a minha fragilidade assusta ou é a imagem do exoesqueleto indestrutível que a cobre?

Por que não falar a verdade, depois que já se sabe de tudo? O orgulho é mais importante que a felicidade?

Entendo que as situações se repetem na vida da gente para aprendermos algo, e agirmos diferente quando acontece de novo. Eu mudei. Eu aprendi. Minhas atitudes foram diferentes. Mas por que os resultados continuam os mesmos?

Por que as coisas são sempre tão difíceis? Por que não ser tudo simples como deveria ser? Será que eu sou atraída por esse tipo de situação? Vai ser assim até quando?

Será que eu estou destinada a permanecer sozinha assim hoje e sempre?

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Da rosa

'' Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!'' 


[E.E Cummings.]

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Da presença de hoje

"A morte não é nada,
Eu estou apenas noutro lado,
Eu sou eu, tu és tu,
Aquilo que éramos um para o outro,
Continuaremos a ser
Chama-me, como sempre me chamaste,
Fala-me, como sempre me falaste,
Não mudes o tom da tua voz
Nem faças um ar solene ou triste
Continua a rir daquilo que juntos nos fazia rir
Diverte-te, sorri, pensa em mim, reza por mim,
Que o meu nome seja pronunciado em casa,
Como sempre foi
Sem qualquer ênfase, sem qualquer sombra.
A vida significa o que sempre significou,
E continua a ser o que sempre foi,
Porque é que eu estando longe do teu olhar,
Estaria longe do teu pensamento?
Espero-te, não estou muito distante
Somente do outro lado do caminho,
Como vês, tudo está bem..."
[Henry Scott Holland - A morte não é nada]

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Da porta

"Achar
a porta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida."

[Paulo Leminski]

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Heaven knows Im miserable now

"Eu te escrevi uma carta. Eu te escrevi uma carta porque eu acho que a gente podia conversar. Você é um homem-muito-ocupado-do-tipo-que-corre-demais (eu sei), e okay, cartas de amor são ridículas (já nos alertou o poeta), mas sabe como é, eu te escrevi uma carta pra tentar te falar.
E eu diria pessoalmente se você, ao fim do dia, apenas aparecesse. Chegasse assim, sem avisar, na porta do meu prédio (apartamento 403, lembra?) e me pedisse pra descer. Eu desceria as escadas de havaianas e teria há pouco tempo feito as unhas dos pés (de preto, esmalte preto). Por efeito providencial do vento, o meu coque caíria desfeito assim que eu chegasse na portaria e te encontrasse, pra que você então pudesse elogiar os meus cabelos mais uma vez. E porque o mundo gira perfeito, eu estaria vestindo o meu short jeans favorito (será que você ainda repara nas minhas pernas?) e aquela camiseta cinza que diz “Heaven knows I’m miserable now” (ah, o Morrissey nessas horas). E a gente caminharia às onze e meia da noite pela Real Grandeza até que nos sentássemos em uma mesa de madeira bamba na calçada de um boteco xexelento e eu pudesse então te dizer.
Eu pensei em te ligar, não fosse a minha ligação sempre encaminhada para a caixa de mensagens estando sujeita à cobrança após o sinal (ah, as cobranças e os sinais). Por que isso sempre? Por onde você anda? Subsolos? Cofres? Pensei também em te mandar uma mensagem, mas sei como é, você é um homem-muito-ocupado-do-tipo-que-corre-demais e talvez não veja a minha mensagem. Ou talvez a veja e a deixe pra depois – que é quando os homens muito ocupados resolvem as coisas não urgentes. Aliás, eu me pergunto se você faz mesmo o que eu acho que você faz ou se essa sua vida atribulada se deve ao fato de você trabalhar para a NASA, para a CIA ou coisa assim. Toda vez que você desaparece, eu me pergunto se você foi vítima de um ataque cardíaco, de uma abdução alienígena ou se resolveu escalar no Nepal, mas não, foi só o tempo que faltou (outra vez) pra nós dois.
Então eu te escrevi uma carta em 30 minutos, pra te falar uma coisa que resume os últimos 30 meses da minha vida (será o que chamam de crise dos 30?). Eu espero que você a leia e que saiba o que fazer com ela. E comigo. Eu desejo que a gente abra todos os parênteses e coloque também uns pingos nos i´s. É só uma carta, pode ficar sossegado. Mas, se alguma coisa der errado, e ao final da minha (sua) carta, você (mais uma vez) não souber o que fazer, eu só queria te dizer que, de longe, você é a coisa mais bonita que não me aconteceu na vida. Assim, acontecendo. Assim, sem acontecer. Só isso."
[Verônica Fantoni]

sábado, 10 de maio de 2014

Do dar

..."O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força -- que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés -- mesmo se fogem -- retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias."


[Lya Luft - canção na plenitude]

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Do bis

"sabendo
que assim dizendo
— poema —
estava te
matando
mesmo assim
te disse
sabendo
que assim fazendo
você estava durando
foi duro
mesmo assim
te trouxe
mesmo assim
te fiz
mesmo sabendo que ias
fugaz
ser infeliz
sempre infeliz
mesmo assim
te quis
mesmo sabendo
que ia
te querer
ficar querendo
e pedir bis"

[Paulo Leminski]

terça-feira, 22 de abril de 2014

Do mato

"Anos andando no mato, 
nunca vi um passarinho morto, 
como vi um passarinho nato. 
Onde acabam esses voos? 
Dissolvem-se no ar, na brisa, no ato? 
São solúveis em água ou em vinho? 
Quem sabe, uma doença dos olhos. 
Ou serão eternos os passarinhos?"

[Paulo Leminski]

Dalista

"Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!

Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer

Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assovia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você"


[Oswaldo Montenegro]

Do abismo 2

"De ilusão em ilusão 
até a desilusão
é um passo sem solução
um abraço
um abismo
um soluço
adeus a tudo que é bom
quem parece são não é
e os que não patecem são
matar, a forma mais alta de amar,
matar em nós a vontade de matar,
voltar a matar a vontade,
matar, sempre, matar,
mesmo que, para isso
seja preciso todo nosso amar"

[ Paulo Leminski ]

segunda-feira, 21 de abril de 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Do jovem

"Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas ruins mas amplia as coisas boas, e que graças a este artifício conseguimos suportar o peso do passado. "

[Gabriel Garcia Marquez - o amor nos tempos do cólera ]

Do desencanto

"Mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração."

[Gabriel García Márquez - O amor nos tempos do cólera]

terça-feira, 15 de abril de 2014

Do que eu quero

"Tem gente que escreve, tem gente que fala demais. Tem gente que fala cuspindo. Tem gente que mente, que abandona, que não sabe dançar. Tem gente que não tem graça, que tem bafo, que não gosta de animais, ou de viajar. Tem gente que não come sushi, que não gosta de Carnaval. Tem gente que não consegue esquecer, ou até lembrar. Tem gente pra tudo na vida, dos hábitos mais irritantes e das surpresas mais inesperadas que se pode imaginar. Precisa-se de dois para formar um par. Um par de seres defeituosos e confusos. E isso vale, será?
No que deve consistir, afinal, esse negócio sem volume, sem cor, sem aroma, mas que vive encravado na alma, que nos faz enxergar todos os defeitos, observar todos os trejeitos, e ainda assim, querer ficar? Juntando loucuras, unindo remendados e cansados corações.
Tentar mais uma vez, porque vale a pena.  
Amar."
[Daniela Antoniassi]

domingo, 6 de abril de 2014

Do fundo

"No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas."


[Paulo Leminski ]

sábado, 5 de abril de 2014

No excuses



Do que eu escolho

http://poraosombrio.blogspot.com.br/2008/12/das-escolhas.html

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Do hackear

... Você
precisa saber da piscina,
da margarina,
da gasolina,
da Carolina

Você
PRECISA saber de mim??
Baby,
Baby
Eu sei que é assim..."

[Caetano Veloso - Baby]

sábado, 29 de março de 2014

Do segredo

"Não há verso,
Tudo é prosa,
passos de luz
num espelho,
verso,
ilusão de ótica, 
verde, 
o sinal vermelho. 

Coisa 
feita de brisa,
de mágoa 
e de calmaria,
dentro 
de um tal poema,
qual poesia 
pousaria?
Eu, hoje, acordei mais cedo e, 
azul, tive uma idéia clara.
Só existe um segredo:
Tudo está na cara."

[Paulo Leminski]

Do negro

"Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada
Navios que se afastam ponteados de luz na treva
Cada um diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar."

[Fernando Pessoa - Álvaro de Campos]

Do fim

Após anos a fio, pra não falar em décadas de visitas semanais, tive enfim alta da terapia essa semana. A conclusão que cheguei, dinamismo da vida à parte, não estou mais ou menos perdida do que estive no primeiro dia em que pisei naquele consultório. Não estou mais nem menos resolvida.
Apenas me conheço bem o suficiente a ponto de saber o que eu quero, o que eu consigo, o que eu to a fim de enfrentar, até onde vou, o que me mata de preguiça, o que não tenho forças mais, o que me move, o que vale a pena... Maturidade? Sei lá. Acho que entendimento. Consciência.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Do que quero dizer não digo

Do ser

"Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou? 

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?

Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal."

[Fernando Pessoa - Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"]

quarta-feira, 26 de março de 2014

Do desaparecer

"Before i disapear
Whisper in my ear
Give me something to echo
In my unknown futures ear"

[Eddie Vedder]