Não estou lá com muitas idéias do que postar... Houveram uns dias em que estava com a cabeça a mil, mas a falta de tempo e paciência para ligar esse pc que trabalha a passos de tartaruga manca e passar meus pensamentos para a tela me venceu...
To aqui as voltas com um trabalhinho sobre relação médico-paciente e , não só agora, mas talvez agora mais conscientemente, me dei conta do quão complicado é isso e do que realmente pode ser chamado de relação médico paciente...
existe alguma relação possível com um paciente que não responde a estímulos externos que não aqueles dolorosos? será que eles entem o que acontece? Será que aquelas mínimas reações que pensamos ser involuntarias têm algum propósito?
papo chato? ... talvez... Mas alguém tem uma luz?
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Dos pacientes II
Pensem comigo, quão anti-ético seria aceitar o convite pra sair de um paciente?
Um paciente gato, muito gato: morenasso, olhos verdes, ectoscopia impecável, tórax simétrico e bem definido, abdome plano e sarado (ai, ai...) me perguntou se um anel de ouro que uso na mão direita era de noivado. Eu respondi que não, que nem tava namorando. (Também não precisava ter dado detalhes, né?) Aí ele me perguntou se me chamasse pra sair se eu aceitaria.
Rá!
Me achei!
Solteira, livre e desimpedida que sou, bem que poderia ter aceitado. Mas considerei a situação minimamente, pra não dizer absolutamente, contra a ética da profissão e não aceitei.
Tá bom vai, sei que ainda sou das únicas mongolóides que levam esse tipo de princípio à sério, mas... thats me.
Meu nome é princípio, prazer.
(Mas que não deixo de me remoer, ai isso não...)
Um paciente gato, muito gato: morenasso, olhos verdes, ectoscopia impecável, tórax simétrico e bem definido, abdome plano e sarado (ai, ai...) me perguntou se um anel de ouro que uso na mão direita era de noivado. Eu respondi que não, que nem tava namorando. (Também não precisava ter dado detalhes, né?) Aí ele me perguntou se me chamasse pra sair se eu aceitaria.
Rá!
Me achei!
Solteira, livre e desimpedida que sou, bem que poderia ter aceitado. Mas considerei a situação minimamente, pra não dizer absolutamente, contra a ética da profissão e não aceitei.
Tá bom vai, sei que ainda sou das únicas mongolóides que levam esse tipo de princípio à sério, mas... thats me.
Meu nome é princípio, prazer.
(Mas que não deixo de me remoer, ai isso não...)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Dos pacientes
Quando está pagando a consulta, o paciente quer e tem o direito de se queixar da ponta do fio de cabelo que está fraca até o dedinho do pé esquerdo que está formigando. Isso passando pela dor que sobe e desce, pela fincada na garganta, pelo problema do ranço com carne de porco e ainda a maldita ursa na boca do estrombo...
Já quando estão sendo examinados por alguma outra razão, especialmente exames periódicos do trabalho em que a "consulta" anual é paga pela empresa, tudo some. Tá todo mundo ótimo. Aliás, ótimo não, normal.
Normal.
Essa é a resposta de 99,6% dos pacientes.
- Tá sentindo alguma coisa hoje, senhor Guiomar?
- Não, normal.
A situação vivenciada repetidamente além de a primeira vista me divertir, me fez questionar o que leva alguém a responder "normal" à pergunta acima...
Talvez o medo de dizer a verdade e ser despedido:
- sim doutora, tô sentindo uma dor na coluna insuportável!
Talvez a ausência de outras verdades pela falta de confiança e intimidade obviamente impossibilitada, pra não dizer destruída, em uma relação médico-paciente de 5 minutos:
- sim doutora, tô sentindo muita falta do meu namorado que me trocou por outra.
ou quem sabe:
- sim doutora, minha vida tá péssima e tô sentindo uma tremenda vontade de morrer, já até comprei a corda!
É, acho que "normal" = "estou me sentindo como de costume". Mas não necessariamente esse costume significa não estou sentindo nada. No fundo eles estão é querendo transmitir uma ausência de sentimentos/sensações diferentes dos habituais.
Ainda hoje, no mesmo exame periódico de 5 minutos, em que mal se trocam palavras, e foram ouvidos muitos "normal" como resposta, uma paciente de 42 anos me causou admiração, exatamente por sua resposta fugir do normal.
- Bom dia, Dona H. , a senhora está se sentindo bem?
- Estou incrivelmente bem, doutora. Graças a Deus.
- Que bom, Dona H.! Fico feliz pela senhora.
Tal resposta me surpreendeu.
Me perguntei e logo perguntei a ela a razão de tanto bem estar, no que ela me contou que realizou uma colecistectomia videolaparoscópica (cirurgia de retirada da vesícula), e no fim da operação, o cirurgião ao realizar uma vistoria na cavidade abdominal antes de fechar, visualizou uma massa no ovário esquerdo. Na mesma cirurgia o ovário foi retirado e biopsiado, e o resultado foi um câncer de ovário. Posteriormente o útero foi retirado, mas felizmente não foram encontradas metástases. Mas para evitar que ainda estejam circulando células malignas que posteriormente podem se implantar e crescer em algum outro lugar, ela está passando por sessões de quimioterapia. Essas por sua vez à fizeram engordar, perder os cabelos e a vaidade. Mas não fizeram Dona H. perder a esperança e a alegria por estar viva. Por ter encontrado o tumor antes de ser tarde demais, antes de ser possível fazer alguma coisa. Com sua descabelada peruca levemente ruiva, Dona H. me passou a lição de que devemos ver o lado bom de todas as coisas, e não apenas levar uma vida normal, com respostas normais.
E se ao reler vejo que possivelmente não fez o menor sentido nada do que escrevi, azar. Isso aqui é instrumento de catarse. E não pra fazer lógica pra alguem. E tenho dito.
Já quando estão sendo examinados por alguma outra razão, especialmente exames periódicos do trabalho em que a "consulta" anual é paga pela empresa, tudo some. Tá todo mundo ótimo. Aliás, ótimo não, normal.
Normal.
Essa é a resposta de 99,6% dos pacientes.
- Tá sentindo alguma coisa hoje, senhor Guiomar?
- Não, normal.
A situação vivenciada repetidamente além de a primeira vista me divertir, me fez questionar o que leva alguém a responder "normal" à pergunta acima...
Talvez o medo de dizer a verdade e ser despedido:
- sim doutora, tô sentindo uma dor na coluna insuportável!
Talvez a ausência de outras verdades pela falta de confiança e intimidade obviamente impossibilitada, pra não dizer destruída, em uma relação médico-paciente de 5 minutos:
- sim doutora, tô sentindo muita falta do meu namorado que me trocou por outra.
ou quem sabe:
- sim doutora, minha vida tá péssima e tô sentindo uma tremenda vontade de morrer, já até comprei a corda!
É, acho que "normal" = "estou me sentindo como de costume". Mas não necessariamente esse costume significa não estou sentindo nada. No fundo eles estão é querendo transmitir uma ausência de sentimentos/sensações diferentes dos habituais.
Ainda hoje, no mesmo exame periódico de 5 minutos, em que mal se trocam palavras, e foram ouvidos muitos "normal" como resposta, uma paciente de 42 anos me causou admiração, exatamente por sua resposta fugir do normal.
- Bom dia, Dona H. , a senhora está se sentindo bem?
- Estou incrivelmente bem, doutora. Graças a Deus.
- Que bom, Dona H.! Fico feliz pela senhora.
Tal resposta me surpreendeu.
Me perguntei e logo perguntei a ela a razão de tanto bem estar, no que ela me contou que realizou uma colecistectomia videolaparoscópica (cirurgia de retirada da vesícula), e no fim da operação, o cirurgião ao realizar uma vistoria na cavidade abdominal antes de fechar, visualizou uma massa no ovário esquerdo. Na mesma cirurgia o ovário foi retirado e biopsiado, e o resultado foi um câncer de ovário. Posteriormente o útero foi retirado, mas felizmente não foram encontradas metástases. Mas para evitar que ainda estejam circulando células malignas que posteriormente podem se implantar e crescer em algum outro lugar, ela está passando por sessões de quimioterapia. Essas por sua vez à fizeram engordar, perder os cabelos e a vaidade. Mas não fizeram Dona H. perder a esperança e a alegria por estar viva. Por ter encontrado o tumor antes de ser tarde demais, antes de ser possível fazer alguma coisa. Com sua descabelada peruca levemente ruiva, Dona H. me passou a lição de que devemos ver o lado bom de todas as coisas, e não apenas levar uma vida normal, com respostas normais.
E se ao reler vejo que possivelmente não fez o menor sentido nada do que escrevi, azar. Isso aqui é instrumento de catarse. E não pra fazer lógica pra alguem. E tenho dito.
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