quinta-feira, 19 de julho de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Da noite

"Por causa de meu amigo
Aguardo a grande noite sem receios.
Quando a noite cai, meu amigo desperta;
Vou até ele; e nos consolamos longamente.
Ele passeia meus olhos pelos jardins das estrelas.
Eu lhe falo das grandes árvores do Norte
E dos frios açudes onde a lua,
Pastora do céu, como uma amante, vai banhar-se;
Ele me explica que só as coisas perecíveis
É que inventam suas palavras
E aquelas que não devem perecer
Se calam para sempre, com o tempo inteiro a seu dispor -
E que a sua eternidade as manifesta."

[André Gide]

Da vã pergunta

"Já tive medo.
Já tive coragem.
Já tive certezas.
Hoje só tenho uma dúvida:
Eu tenho você?"

[Fábio Vanzo]

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dos silêncios e dúvidas

"Olhos que recolhem 
Só tristeza e adeus
Pra que outros olhem
Com amor os seus.


Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.


Lábios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.


Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente."


[Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Dos atos

"Eu quero de fato são os atos.
Marcados, datados, fragmentados.
Guardados, contidos, em vários vidrinhos.
Colocá-los em minha estante.
Pra que eu possa vê-los.
Apreciá-los.
E quando velho,
estiver com a casa lotada de frascos,
quero quebrá-los um à um.
Para lembrar, satisfeito do meu feito,
A importância que teve cada minuto."


[Leonardo Schneider]

domingo, 15 de julho de 2012

Vem



"Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –
andar sempre em frente
até como se diz
o corpo aguentar.
Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te."
[José Agustin Goytisolo]

sábado, 14 de julho de 2012

Da poesia

"A poesia seria cúmplice, desde o início, desse sentimento que se chama amor. Eu acho que é uma coisa perfeitamente lógica, natural, porque a poesia, se vocês olharem bem, ela é o amor entre os sons e os sentimentos. Ela já é na sua substância, intrinsecamente, ela já é amor, já é aproximação, no sentido que é amor entre os sons e os sentidos, num sentido que a prosa não é. É por isso que a poesia não morre. Por que essa coisa tão inútil que não consegue sequer se transformar decentemente em mercadoria num mundo mercatório, esse mundo em que vivemos? Qualquer editor principiante sabe: poesia não vende. Existe esse hiato, realmente poesia não vende, e é bom que não venda! Sabe aqueles que reclamam dizendo, é um absurdo, um país como o nosso, não sei o quê, tchê, tchê, pá, pá, e poesia não vende. Vamos nos rejubilar. Poesia não vende. Poesia é ato de amor entre o poeta e a linguagem. E esse é um território como se fosse assim uma reserva ecológica do mercado em que vivemos que resiste ao fato de se transformar em mercadoria. Não é uma infelicidade e nenhuma inferioridade da poesia escrita, falando da poesia escrita, da poesia, escrita, da poesia livro, a dificuldade dela em se transformar em mercadoria é uma grandeza. Quem não entender isso não entende a verdadeira natureza da poesia, ela é feita de uma substância que é, basicamente, rebelde à transformação em mercadoria. A gente pode criar um mundo assim, um império total da mercadoria, tudo pode ser vendido, coisas, sensações, as coisas mais incríveis, os momentos mais emocionantes. Uma coisa, porém, não pode ser transformada em mercadoria, que é o amor. Amor é dado de graça, alguém pode comprar amor? Pode-se comprar o sexo de outra pessoa, mas o amor a gente sabe que é o último reduto que resiste à transformação em mercadoria.”


[Paulo Leminski]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Do desligar

"Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali."


[charles bukowski]

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Do 6

Hoje seis meses de mudança, em que a solidão me acompanhou e permaneceu comigo a maior parte do tempo entremeada por vislumbres de tentativas (frustras) e uma longínqua possibilidade de amor com rios de ilusão.
Possibilidade que possui um coracão com tanta gente, e tanta bagunça que acaba confundindo quem está ao redor querendo um pedacinho dele.
Possibilidade essa que se encontra no mesmo tempo que eu, mas não no mesmo espaço. 
Tempo em que muitos planos foram completamente destruídos e passei a questionar o que (não) estou fazendo com minha vida, com meu presente e com meus sentimentos.
Apesar de algumas respostas já existirem e me surprenderem positivamente, ainda me restam tantas dúvidas, tanta insegurança, tanto medo. Sei que mais me incomoda é o talvez, o incerto.. o "e se". 
Mas será que alguém tem certeza de alguma coisa? Bom, eu já tive algumas. 
E que invariavelmente acabaram descendo pelo ralo.


Tento continuar acreditando em alguma coisa, que o que está por vir será infinitamente melhor que o que foi. Porque se eu perder essa faísca e deixar a desesperança dominar, aí tenho certeza: não me restará mais nada. 
Quanto tempo mais esperando?
Quantos sonhos mais desmoronados e ilusões esfareladas nesse meio do caminho? 
Quantos planos modificados e reconstruídos inúmeras e inúmeras e inúmeras vezes pra se adequar à realidade? E que realidade é essa? E é ela que eu quero? E o que eu faço pra mudar o que não quero? 
E como não acabar endurecendo com todas essas mortes? Como não se deixar iludir tão facilmente?
Como não perder o brilho diante da vida? Como aprender a não se entregar ao sentir?


Tantos questionamentos e por enquanto só uma resposta: 
Sentir é sofrer. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Das palavras

"Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras."

(ou sentimentos...)

[Manoel de Barros in "O Guardador de Águas"]


domingo, 8 de julho de 2012

The only one



But I'm not the only one...
Hope someday you'll join us..

sábado, 7 de julho de 2012

Do defeito

"...Porque só beijo quem amo
Só abraço quem gosto
Só me dou por paixão


Eu só sei amar direito
Nasci com esse defeito
No coração."


[Maria Bethânia - Barulho]

Do convite

"Nunca peça o que deveria ser oferecido". - do Filme Winters Bone (2010).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ai meu coração..

"Eu tão isósceles,
você ângulo,
hipóteses sobre meu tesão,


teses, sínteses, antíteses,
vê bem onde pises,
pode ser meu coração."


[Paulo Leminski]

Da iaiá


"Iaiá, se eu peco é na vontade
de ter um amor de verdade.
Pois é que assim, em ti, eu me atirei
e fui te encontrar
pra ver que eu me enganei.
Depois de ter vivido o óbvio utópico
te beijar
e de ter brincado sobre a sinceridade
e dizer quase tudo quanto fosse natural
Eu fui praí te ver, te dizer:
Deixa ser.
Como será quando a gente se encontrar ?
No pé, o céu de um parque a nos testemunhar.
Deixa ser como será!
Eu vou sem me preocupar.
E crer pra ver o quanto eu posso adivinhar.
De perto eu não quis ver
que toda a anunciação era vã.
Fui saber tão longe
mesmo você viu antes de mim
que eu te olhando via uma outra mulher.
E agora o que sobrou:
Um filme no close pro fim.
Num retrato-falado eu fichado
exposto em diagnóstico.
Especialistas analisam e sentenciam:
Oh, não!
Deixa ser como será.
Tudo posto em seu lugar.
Então tentar prever serviu pra eu me enganar.
Deixa ser.
Como será.
Eu já posto em meu lugar
Num continente ao revés,
em preto e branco, em hotéis.
Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê"
[Los Hermanos - Retrato pra iáiá]

domingo, 1 de julho de 2012

The scientist


Das algemas



"Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas."

[Manoel de Barros]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Do pouco

"Talvez eu seja um pouco de tudo que já li. Um pouco de tudo que meu olhar já aprendeu do mundo. Um pouco das belas músicas. Um pouco daqueles que me são queridos. Um pouco de múltiplos sentimentos e algumas fraquezas. Talvez eu seja um pouco do que você deixou em mim, mas em essência, o muito da minha essência, é algo delicado e misterioso."


[Rubem Alves]

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dos tamanhos


"Como se mede uma pessoa? 
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. 
É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade. 
Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto. 
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês. 
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? 
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. 
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. 
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. 
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. 
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. 
É a sua sensibilidade sem tamanho."

[Martha Medeiros]

terça-feira, 26 de junho de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

Do falar sobre o Kevin

"(...)Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a idéia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações - para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importaância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentmos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos ver(...)".

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"(...)Toda vez que eu me forçava a sorrir, era muito claro que ele sabia que eu não estava com vontade de fazer isso, porque nunca me sorriu de volta. Ele ainda não tinha visto muitos sorrisos na vida, mas tinha visto o seu, e era suficiente pra reconhecer que, comparativamente, havia algo errado com o da mamãe. Ele se abria de uma forma falsa; evaporava com uma velocidade reveladora assim que eu me afastava do berço. Será que foi assim que Kevin arranjou o sorriso dele? No presídio, aquele sorriso de marionete, como se puxado por uma cordinha?(...)"

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"(...)A expressão de kevin era tranquila. Ainda exibia uns restos de determinação, mas esta já deslizava para a empáfia arrogante e serena de um trabalho bem feito. Os olhos dele estavam estranhamente desanuviados - imperturbados, quase pachorrentos - e, reconheci a transparência daquela manhã (...) Aquele era o filho estranho, o menino que largara o disfarce vulgar e evasivo do quer dizer e do eu acho e o trocara pelo porte de chumbo e pela lucidez do homem que tem uma missão(...)"



[Shriver, Lionel. Precisamos falar sobre o Kevin - trechos]

sábado, 23 de junho de 2012

Das almas

"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
A almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. 


Porque os corpos se entendem, mas as almas não. "


[Manuel Bandeira]

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Do arrumar


“Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.


Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultadoMas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida…
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema…
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra…”

[Álvaro de Campos]

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Das fraturas


"Nunca sabemos quando tudo realmente acaba. O beijo roubado que te fez voltar suspirando para casa ou cantando baixinho no ônibus pode ter sido o último. Aquela noite de amor inesquecível talvez não se repita mais. O abraço do amigo, a viagem para Porto Alegre, a conversa na varanda durante a noite fria, o banho de piscina, o pedaço de bolo de fubá com café quentinho, o passeio com o cachorro. De uma hora para outra, aleatoriamente, perdemos a chance de repetir nossos melhores momentos, e ficam apenas fragmentos, fantasmas guardados nisso que chamamos de memória.
Não dói a ausência. Dói isso que fica. Esse processo penoso que chamamos de luto não é falta, é presença. A chaga, a fratura, o órgão dilacerado, é esse vulto, essa imagem difusa que não nos deixa, a permanência do que não existe mais. O último “eu te amo” dito é um fêmur que se parte em dois e que rasga o músculo. 
O primeiro segurar na mão dela é a clavícula exposta quando tudo termina. O beijo que você relembra a cada fechar de olhos é um maxilar feito em pedaços.

Somos a soma de nossos encontros durante a existência, e alguns deles são feridas que nunca cicatrizam. No fundo, é a felicidade que mutila. Só o que é intenso deixa marcas, só o inesquecível rasga a carne. E não adianta não se colocar no mundo, não adianta fugir do outro, não adianta se esconder. A única alternativa viável para permanecer intacto é não viver.
Sendo assim, jogue-se. Quebre-se. Frature-se. E tenha orgulho de cada uma dessas marcas."

[Marcos Donizetti]

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Da razão

"(...)A vida, pensava eu, sempre acaba tendo razão, e se a vida se ria dos meus belos sonhos, pensava, era porque meus sonhos tinham sido estúpidos e irracionais. Mas isso não me valeu de nada. Mas como tivesse bons olhos e ouvidos, e além disso, fosse curiosa, examinei a vida com certa atenção, observei meus vizinhos e conhecidos, mais de ciquenta pessoas e destinos, e percebi então Harry, que meus sonhos estavam certos, estavam mil vezes certos, assim como os seus. Mas a vida, a realidade, não tinha razão.(...)"


[Hesse, Hermann. O lobo da estepe]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

domingo, 10 de junho de 2012

Do irremediável

"Então não pertencia a mundo nenhum? E alguém pertence a algum?
Algumas pessoas são assim; em certos momentos têm a ilusão de fazer parte de um grupo, seja ele político, intelectual, boêmio, de meditação, ou a qualquer outro, mas nunca conseguem. Elas sabem que somos todos fundamentalmente sós, embora procuremos durante todo o espaço de uma vida negar essa realidade, que nem chega a ser triste, é apenas a realidade. Quanto esforço elas fazem -fizeram- para se encaixar em algum desses universos sem nunca conseguir; e será que alguém consegue? De verdade?
As pessoas às vezes se sentem irremediavelmente sós; mas basta um dia encontrar um novo amigo, um novo amor, para o mundo ficar mais bonito e a vida voltar a valer a pena.
É isso que se procura e às vezes encontra; e quando acontece, é bom demais."


[Danuza Leão]

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Dos personagens



"Não soube nunca o que sentia. Quando me falavam de tal ou tal emoção e a descreviam, sempre senti que descreviam qualquer coisa da minha alma, mas, depois, pensando, duvidei sempre. O que me sinto ser, nunca sei se o sou realmente, ou se julgo que o sou apenas. Sou bocados de personagens de dramas meus."

[Fernando Pessoa, in Maneira de Bem Sonhar nos Metafísicos]